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6 de out de 2012



Nada é totalitário (apesar de que a palavra "nada" também o seja), mas tenho para mim que (tod)o poema deveria estar desnudo de qualquer explicação. Dedicatórias, datas, localizações, citações são apenas a pueril vaidade do poeta enchendo linguiça. Vade-retro, satanás! Nem sempre consigo exorcizar o demônio. Este texto, por exemplo, já deu, mas o poema abaixo, filho de minhas entranhas, sequer vem vestido com um título. 


 




As grosseiras palavras contra Rilke
não foram pra atingi-lo, caro amigo.
Mas devo admitir, foi muito engraçado.
Não leve para o lado pessoal.

(Fico pensando, se falasse mal
de Cairo ou Cabral, de Glauco ou Britto
ficaria também meio bolado.)
É sincero o que digo: me desculpe.

Sobre o poema em inglês, a razão
(de novo) está contigo. É insensato
ensaiar voo na língua de Shakes-

peare, se temos um vocabulário
"assaz" rico. Você fala alemão?
Em tempo: achei que preferisse Blake.

(FF)
 

Achei esta preciosidade! Digo isto pois até então desconhecia Alexandre O'Neill(1924-1986). Meus amigos mais cultos que eu, riram de minha ignorância. Confesso, com certa tristeza, que ela realmente abrange diversos assuntos.
O'Neill era português, mas tinha origem irlandesa. Autodidata, quis ser piloto de avião, mas a miopia não deixou. Era surrealista.
Posto o poema “Adeus Português” - poema do seu primeiro livro ( A Ampola Miraculosa, de 1948) e que o deixou célebre - e, logo abaixo, o áudio do mesmo poema na voz de Luis Gaspar.
 
 
Adeus Português

Nos teus olhos altamente perigosos  
vigora ainda o mais rigoroso amor  
a luz dos ombros pura e a sombra  
duma angústia já purificada 

Não tu não podias ficar presa comigo  
à roda em que apodreço  
apodrecemos 
a esta pata ensanguentada que vacila  
quase medita 
e avança mugindo pelo túnel  
de uma velha dor 

Não podias ficar nesta cadeira  
onde passo o dia burocrático  
o dia-a-dia da miséria  
que sobe aos olhos vem às mãos  
aos sorrisos 
ao amor mal soletrado  
à estupidez ao desespero sem boca  
ao medo perfilado  
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca  
do modo funcionário de viver 

Não podias ficar nesta casa comigo 
em trânsito mortal até ao dia sórdido  
canino 
policial 
até ao dia que não vem da promessa  
puríssima da madrugada  
mas da miséria de uma noite gerada  
por um dia igual 

Não podias ficar presa comigo 
à pequena dor que cada um de nós  
traz docemente pela mão  
a esta pequena dor à portuguesa  
tão mansa quase vegetal 

Mas tu não mereces esta cidade não mereces  
esta roda de náusea em que giramos  
até à idiotia 
esta pequena morte 
e o seu minucioso e porco ritual  
esta nossa razão absurda de ser 

Não tu és da cidade aventureira 
da cidade onde o amor encontra as suas ruas  
e o cemitério ardente  
da sua morte 
tu és da cidade onde vives por um fio  
de puro acaso 
onde morres ou vives não de asfixia  
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro 
sem a moeda falsa do bem e do mal 

Nesta curva tão terna e lancinante 
que vai ser que já é o teu desaparecimento  
digo-te adeus  
e como um adolescente  
tropeço de ternura  
por ti