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10 de out de 2012

Anos atrás, tentei um livro com alguns poemas reunidos. Chamei-o "O Turista". A ideia era bem torta, os poemas também e o livro não vingou (Alá seja louvado!). Mas uma teleamiga, artista italiana, se comprometeu a fazer a arte. Só me entregou meses depois, quando já havia esquecido. Segundo ela, fui sua inspiração. Será?
















O turista, de Laura Gori.

6 de out de 2012



Nada é totalitário (apesar de que a palavra "nada" também o seja), mas tenho para mim que (tod)o poema deveria estar desnudo de qualquer explicação. Dedicatórias, datas, localizações, citações são apenas a pueril vaidade do poeta enchendo linguiça. Vade-retro, satanás! Nem sempre consigo exorcizar o demônio. Este texto, por exemplo, já deu, mas o poema abaixo, filho de minhas entranhas, sequer vem vestido com um título. 


 




As grosseiras palavras contra Rilke
não foram pra atingi-lo, caro amigo.
Mas devo admitir, foi muito engraçado.
Não leve para o lado pessoal.

(Fico pensando, se falasse mal
de Cairo ou Cabral, de Glauco ou Britto
ficaria também meio bolado.)
É sincero o que digo: me desculpe.

Sobre o poema em inglês, a razão
(de novo) está contigo. É insensato
ensaiar voo na língua de Shakes-

peare, se temos um vocabulário
"assaz" rico. Você fala alemão?
Em tempo: achei que preferisse Blake.

(FF)
 

Achei esta preciosidade! Digo isto pois até então desconhecia Alexandre O'Neill(1924-1986). Meus amigos mais cultos que eu, riram de minha ignorância. Confesso, com certa tristeza, que ela realmente abrange diversos assuntos.
O'Neill era português, mas tinha origem irlandesa. Autodidata, quis ser piloto de avião, mas a miopia não deixou. Era surrealista.
Posto o poema “Adeus Português” - poema do seu primeiro livro ( A Ampola Miraculosa, de 1948) e que o deixou célebre - e, logo abaixo, o áudio do mesmo poema na voz de Luis Gaspar.
 
 
Adeus Português

Nos teus olhos altamente perigosos  
vigora ainda o mais rigoroso amor  
a luz dos ombros pura e a sombra  
duma angústia já purificada 

Não tu não podias ficar presa comigo  
à roda em que apodreço  
apodrecemos 
a esta pata ensanguentada que vacila  
quase medita 
e avança mugindo pelo túnel  
de uma velha dor 

Não podias ficar nesta cadeira  
onde passo o dia burocrático  
o dia-a-dia da miséria  
que sobe aos olhos vem às mãos  
aos sorrisos 
ao amor mal soletrado  
à estupidez ao desespero sem boca  
ao medo perfilado  
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca  
do modo funcionário de viver 

Não podias ficar nesta casa comigo 
em trânsito mortal até ao dia sórdido  
canino 
policial 
até ao dia que não vem da promessa  
puríssima da madrugada  
mas da miséria de uma noite gerada  
por um dia igual 

Não podias ficar presa comigo 
à pequena dor que cada um de nós  
traz docemente pela mão  
a esta pequena dor à portuguesa  
tão mansa quase vegetal 

Mas tu não mereces esta cidade não mereces  
esta roda de náusea em que giramos  
até à idiotia 
esta pequena morte 
e o seu minucioso e porco ritual  
esta nossa razão absurda de ser 

Não tu és da cidade aventureira 
da cidade onde o amor encontra as suas ruas  
e o cemitério ardente  
da sua morte 
tu és da cidade onde vives por um fio  
de puro acaso 
onde morres ou vives não de asfixia  
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro 
sem a moeda falsa do bem e do mal 

Nesta curva tão terna e lancinante 
que vai ser que já é o teu desaparecimento  
digo-te adeus  
e como um adolescente  
tropeço de ternura  
por ti  
 
 


22 de fev de 2011

A Prostituta Sagrada




A israelense Yona Wollach (1944-1985) é uma personalidade complexa. Nunca conseguiu se fixar em empregos. Internou-se voluntariamente em um hospital psiquiátrico, onde era submetida a sessões de aplicação de ácido lisérgico. Morou quase toda a vida num galinheiro adaptado em Kiriat Ono.
Sua obra poética pode ser considerada emotiva, irônica, pornográfica e de elevada imaginação metafórica. Morreu de câncer.
O poeta Moacyr Amâncio (que futuramente merecerá um post) acabou de lançar o livro Yona e o AndróginoNotas sobre Poesia e Cabala, (Edusp, 160 págs, R$ 30), onde faz um apanhado da vida e obra dessa poeta que renovou a língua hebraica.


Deixa que em ti façam as palavras
deixa que elas sejam livres
elas penetrar-te-ão bem fundo
fazendo formas sobre formas
formarão em ti aquela vivência
deixa que em ti façam as palavras
elas farão em ti como quiserem
fazendo formas novas na tua cousa
farão na cousa tua
a mesma cousa exatamente
que elas são a cousa que farão
você entenderá que elas far-te-ão reviver
aquela vivência e seu significado como natureza
pois elas natureza são e não invenção
e nem descoberta que sim são natureza
farão a cousa natureza em ti
como dar sexo é vida para a palavra
deixa que em ti façam as palavras


(Fonte: Luiz Ruffato, revista Cult)

14 de jan de 2011

Procura-se desesperadamente!

Lucky Strike Click & Roll está em falta no mercado papa-chibé. Já fui várias vezes tentar comprá-lo e, segundo meus fornecedores, a Souza Cruz não tem  estoque suficiente.  Moro em Ananindeua, região metropolitana. A população de Belém tá fumando demais.  Pô, pessoal, fumar faz mal pra saúde! (E mentolado acaba com o tesão.)

3 de nov de 2010

Stand up comedy do Gullar

Ferreira Gullar, o poeta mais vanguardista, mais experimentalista (e mais experimental também) deu uma de Seinfeld e pôs a platéia pra rir na FLIP 8, relatando algumas de suas desventuras nos caminhos, por vezes surreais, do concretismo

video

13 de out de 2010

Poeta Frontal e Surrealista


Achei esta preciosidade! Digo isto pois até então desconhecia Alexandre O'Neill (1924-1986). 
Li um comentário de uma telenauta dizendo que O'Neill nos dá “uma poesia mais frontal, mais cheia-de-garras.” Disse isso sem gostar da sua obra. Achei um barato!
O'Neill era português, mas tinha origem irlandesa. Poeta autodidata, quis ser piloto de avião. A miopia não deixou. Tinha uma vida muito agitava. Morreu de ataque cardíaco.



AUTO-RETRATO

O’Neill (Alexandre), moreno português,
cabelo asa de corvo; da angústia da cara,
nariguete que sobrepuja de través
a ferida desdenhosa e não cicatrizada.
Se a visagem de tal sujeito é o que vês
(omita-se o olho triste e a testa iluminada)
o retrato moral também tem os seus quês
(aqui, uma pequena frase censurada…)
No amor? No amor crê (ou não fosse ele O’Neill!)
e tem a velocidade de o saber fazer
(pois amor não há feito) das maneiras mil
que são a semovente estárua do prazer.
Mas sofre de ternura, bebe de mais e ri-se
do que neste soneto sobre si mesmo disse…


9 de out de 2010

Respostas para perguntas que nunca me fizeram:

Não, senhores, não sei quem é o maior poeta morto, mas o ÚNICO vivo é o Millôr.





                                                             Poesia Cinética IV
 

6 de out de 2010

Vozes do inconsciente pop

...if you wake up at a different time, in a different place, could you wake up as a different person?*

 - do filme Fight Club (1999), baseado no romance homônimo de Chuck Palahniuk
 

(*para meus amigos viajados: se você acordar em um horário diferente, em um lugar diferente, poderia acordar uma pessoa diferente?)

5 de out de 2010

Mas onde encontro meu coração de sábado à noite?



Manuel de Freitas é considerando o grande representante da poesia contemporânea portuguesa. Não dá entrevistas, mas seu nome  e seus poemas aparecem em diversos blogs especializados em literatura (lusitana) ou em páginas pessoais de quem gosta do assunto – como esta.
É quase desconhecido por aqui. Até nas terras do além-mar é difícil encontrar um exemplar de qualquer um de seus livros. Aliás, ultrapassa 20 publicados, entre colaborações e antologias, o que é de assustar pois tem menos de 40 anos (nasceu em 1972).
Em 2002, segundo o wikipedia, organizou a antologia Poetas sem Qualidades que deu o que falar.
Uns, detestam-no; outros, idolatram. Pessoalmente, estou em fase de paquera e não sei se vai rolar. No entanto, o primeiro poema (flerte) que li deixou boas impressões:

All Stripped Down

Cavalheiro idoso, calvo e sem jeito
para foder procura quem o ature
e acredite (às vezes) na ressurreição.
Nunca leu livros, cospe grosso
e ronca. Assunto sério: morrer com alguém.

É do “O Coração de Sábado à Noite” (título genial), de 2004. Livro magrinho, 32 páginas. E esgotado. 


O experimentalismo, sarcasmo, certa crueldade e uma, até agora, desculpável autocomiseração são sua marca registrada. 

Tom Waits da poesia, às vezes produz coisas sublimes, outras vezes, desastrosas - “Errata” é um bom exemplo disso – mas sempre algo inusitado, cheio de vida, inquieto.

30 de set de 2010

Polaco loco paca

Paulo Leminski é a enciclopédia da poesia contemporânea. Deixou de se apresentar em 1989, mas ainda vive entre nós, tirando uma - ou várias - com a nossa cara. Antecipou o twitter com seus poemas dinâmicos, rápidos, que deixavam (e ainda deixam) nos leitores incautos a falsa impressão de fugacidade, de picardia, de desleixo com a língua.
O polaco foi o poeta da língua falada, dos sentimentos cotidianos; o poeta do verso esperto, envolvente, pseudomarginal, descomplicado. Este vídeo mostra um pouco das suas ideias e alguns poemas, também responde questões sobre poesia e o "fazer-poético", com contundência e efusão, sem ser chato. 
Dá-lhe, Leminski!   

video

29 de set de 2010


aqui entre nós, meu caro rapazelho,
fazer metapoemas não é o mesmo
que bater uma olhando pro espelho?

28 de set de 2010


A vida está cada dia mais célere: até ontem mesmo, hoje era amanhã.

27 de set de 2010

Alguns fatos importantes sobre mim:


Nasci nu na minha cidade natal no dia do meu aniversário.
Comprovadamente, sou filho de meu pai e de minha mãe.
Indivíduo precoce, ainda pequeno fui criança, logo passei à adolescente, mas só muito depois tornei-me adulto. Desde então, adio o projeto de envelhecer, deixando pra quando estiver mais maduro.
Até os dezoito, anualmente, vivia crescendo. E, talvez por isso, sou mais alto do que as pessoas menores que eu, apesar de ser menor do que as maiores.
Tenho o hábito de beber e comer todos os dias. E a cada dezesseis horas de vigília, durmo.
Moro próximo dos meus vizinhos, em especial o da direita, o da esquerda e o da frente.
Exceto pelo que ainda não tenho, nada mais desejo na vida.
Aparento total ignorância diante do desconhecido e fui inexperiente em toda a atividade que iniciei.
No momento, vivo o presente, não esqueço que já estive no passado e almejo o futuro.
Leio livros, ouço música e meu hobby predileto é o que mais gosto.